E aí, você pararia de trabalhar caso ganhasse na loteria?

Para muitos, a pergunta de abertura pode ser quase que retórica.

Alguém de fato continuaria a trabalhar mesmo se, do dia para a noite, se tornasse milionário? Tal questão pode se aproximar da utopia, porém que tal fazermos uma reflexão sobre a mesma?

A sociedade contemporânea caracteriza-se por diversas transformações que são sentidas no contexto do trabalho. Uma das definições disseminadas acerca do termo é a capacidade do homem em transformar a natureza por meio de sua atividade laboral (TOLFO et al., 2010). Já para Marx (1867/1968), o trabalho consiste em uma relação dialética entre o homem e a natureza, onde a transformação de um ocasiona consequentemente na transformação do outro, e vice-versa.

Conforme destaca Oliveira, Piccinini, Fontoura e Schweig (2004), é através do trabalho que os seres humanos buscam suprir suas necessidades, alcançar seus principais objetivos de vida e realizar-se enquanto indivíduo ativo da sociedade. Contudo, devido à natureza ampla e complexa do trabalho e a constante influência do contexto cultural e histórico, esse conceito não está isento de sucessivas modificações.

Em sua trajetória por diferentes sociedades e contextos históricos, o trabalho assumiu conotações tanto positivas como negativas (BASTOS, PINHO, & COSTA, 1995). Blanch Ribas (2003) identificou três principais concepções que as pessoas atribuem ao seu trabalho: o polo negativo, polo central e polo positivo. O primeiro está associado a ideia do trabalho como um castigo, esforço e penalidade. O segundo representa as características laborais a partir de uma perspectiva instrumental, uma vez que o trabalho é visto apenas pela sua capacidade de proporcionar a sobrevivência dos sujeitos. Já no polo positivo, o trabalho é associado a autorrealização, possibilidades de satisfação, missão e valor.

Dito isto, a discussão a respeito da manutenção da atividade de trabalho, mesmo após adquirir um prêmio que pode trazer um retorno financeiro pelo restante da vida, não limita-se a única resposta, uma vez que o trabalho pode assumir tanto uma atividade realizada apenas de forma obrigatória ou para retorno monetário, bem como pode apresentar-se como um fator central e essencial na vida do indivíduo.

Tal observação é comprovada pelo estudo de Morse e Weiss (1955) que desenvolveram uma pesquisa pioneira relativa ao significado do trabalho com a mesma pergunta do início do texto: “Você continuaria trabalhando caso ganhasse na loteria?” (VECHIO, 1980). Os resultados demonstraram que mais de 80% dos respondentes afirmaram que dariam continuidade, mesmo não tendo mais necessidade de sobrevivência por meio da venda da e sua mão de obra (GOULART, 2009).

O mesmo se observa em um dos trabalhos mais influentes dentro da temática de significado do trabalho. A equipe MOW (Meaning of Work) em 1987, realizou um estudo em diversos países distintos, indagando a pergunta clássica inspirada em Morse e Weiss (1955) “Imagine que você ganhe na loteria ou que herde uma fortuna que lhe permitirá viver sem trabalhar pelo resto de sua vida, o que você faria com seu emprego?”. O resultado demonstrou que mais de 90% das pessoas continuariam trabalhando, impondo assim,enquanto atividade essencial a vida dos sujeitos.

Referências

BASTOS, Antonio Virgílio Bittencourt; PINHO, Ana Paula Moreno; COSTA, Clériston Alves. Significado do trabalho: um estudo entre trabalhadores inseridos em organizações formais. Revista de Administração de Empresas, v. 35, n. 6, p. 20-29, 1995.

Blanch Ribas, J. M. (2003). Trabajar en la modernidad industrial. En J. M. Blanch Ribas, M. J. E. Tomás, C. G. Durán & A. M. Artiles (Eds.), Teoría de las relaciones laborales. Fundamentos (pp. 19-147). Barcelona: Editorial UOC.

DA ROSA TOLFO, Suzana et al. Sentidos y significados del trabajo: un análisis con base en diferentes perspectivas teóricas y epistemológicas en Psicología. Universitas psychologica, v. 10, n. 1, p. 175-188, 2011.

GOULART, Patrícia Martins. O significado do trabalho: delimitações teóricas (1955-2006). Cadernos de Psicologia Social do trabalho, v. 12, n. 1, p. 47-55, 2009.

MARX, Karl. Processo de trabalho e processo de produzir mais-valia. O capital, v. 14, 1968.

Oliveira, S. R., Piccinini, V. C., Fontoura, D. S. & Schweig, C. (2004). Buscando o sentido do trabalho. En Anais do XXVIII Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, Porto Alegre, RS: ANPAD.

 

VECCHIO, Robert P. The function and meaning of work and the job: Morse and Weiss (1955) revisited. Academy of Management Journal, v. 23, n. 2, p. 361-367, 1980.

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Publicado em: 29 de setembro de 2020

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